POETA VICTOR
pilhas
canos
tubos
pelúcias
estopas
restos de tinta
trapos de roupas
pilhas, aos montes
máquinas
sucata
eu, do alto, não vejo o outro lado
só montes de tudo quanto há
caixas de madeira
caixas de papelão
embalagens de cerveja
latas no chão
peças de metal
sucata
eu cato pedaços de papel
garrafas pet
propagandas das bets
fios de cobre
só não achei dinheiro no lixão
nada parece nobre
a gracha da luva transpassa
marca minhas unhas
engordura minha mão
recicláveis, não recicláveis
faço força com os pés, com as pernas
pescoço, costas, pulmão
tomo cuidado para não ser atingido
pelo tambor de latão
que jogaram pra fora do caminhão
é um quase
estamos a pouco tempo sem acidentes
por equívocos inconsequentes
um dia, um dia
dia de peão
repenso o consumo
presumo, o distúrbio
o capital
a produção
a venda, a compra
o abuso
o consumo é uma forma de ilusão
o encarregado é corruptela do patrão
a máquina até facilita a função, mas o triturador trava
a hora não passa
mesmo que o relógio não pare
borracha queima, o pó vira fumaça e atiça o espirro
a pele coça
são tantas coisas que podem ser outras coisas
após o processo de transformação
mas, não há nada que eu possa fazer
com as coisas que nunca deveriam ter sido coisas
com as pilhas
ilhas de lixo
destinadas à esteira
recicla-me, diz o rótulo
um continente de entulho
que eu criei
toneladas de materiais que, na verdade, nunca precisei
bitucas de cigarro que ao chão lancei
eu sei para onde vão os meus restos
se hoje eu presto,
amanha, talvez, não
no amanhã, se eu e você,
todas as coisas
e as coisas que não deveriam ser coisas,
não prestar
será possível nos reciclar?
27.08.25
bem que eu gostaria de decorar minhas poesia
mas é tanta coisa que acontece
e quase nada acontece
do jeito que eu queria
mas eu me acalmo
e espero
aprendo virtudes com quem me guia
peço ao Orixá para não me deixar na ignorância
de achar que a importância da vida está na matéria do dia a dia
a relevância da vida tá na pequeneza do pouco a pouco
pedra por pedra ergo meu mundo rodeado de árvore
busco correr atrás
sem medo, mas sagaz
daquilo que me move
rodando por aí escrevendo onde for
não sei o que faria se antes de tudo não fosse escritor
e o que me move é tão nobre e tão singelo ao mesmo tempo
a mensagem que trago tem minha história e fundamento
pq toda vez que escrevo eu me quebro, me remonto e me reoriento
mas não é só por mim
falo das lutas que entro
de irmãos e irmãs que vejo batalhando no centro
ouço e me orgulho de todas aquelas que fazem barulho na poesia
é o fermento pra massa
a graça de tudo tá na arte das praça
por isso eu tô sempre pensando na gente feliz e contente
fazendo o que gosta
que a covardia imposta nunca desgaste minha proposta
concorda comigo que o cara a cara é sempre melhor pra conversar?
que o poeta tá na rua porque é preciso batalhar?
tudo tem o seu tempo
mas é preciso aproveitar cada oportunidade
pra dizer que viveu cada momento
hoje mesmo sai de casa com aquele pensamento
“será que vou, será que não sei”
mas um recado pra mim anotei: “nunca duvide, fé em si mesmo é a maior lei
O Nascer de Mil Tons
Milton Nascimento
É verso que pára o tormento
Estrofe que estanca qualquer sangramento
Alma, fera, água, ventre
Luz da vela acesa pelo
sopro do vento
Caminho de rio
Caudaloso acolhimento
Chuva, seca, nuvem passageira
Voz e eco, passatempo
Emoção na queda da cachoeira
Salva, cura, lava, ensina
Milton é sina de amor e fé
Fé de amar a si e de amar o mundo
Nascimento do fruto
Marco no tempo
Na caminhada
reconheço iguais
nos semelhantes
caracteres desiguais
Performo a vida no jeito de ser
sou, assim, eu e nada mais
sem tirar, nem por
sou quem sou
no caminho do sol
seguindo o meu farol
para iluminar o meus sonhos
eu vou, sempre na paz
o que me faz feliz
é voltar
pra casa, pro abraço
sou reconhecido entre os meus como um bom rapaz
Jóia rara
é necessário me olhar, me conhecer, me lapidar
Intencional, crio cenários só meus
que divido com o travesseiro, no breu
sério, sorrindo
me lanço à noite
abro mão do Eu
Tô me achando...
Me achando... meio estranho,
cabisbaixo, tacanho
Tô precisando...
Tô pensando em ir...
ir prum psicólogo, sei lá
Ei, psiu, cê sabe onde encontro algum remédio?
Pro tédio, pra libido, pro ódio, pra tudo
Pacote completo
Preciso de um médico, um regulador, que seja
Um regulador, isso, regulador
Dor de humor
É... posso beber cerveja?
Pra tudo mesmo, doutor?
Ah, agora quero ver não me achar
Me achar um tanto bem ou normal
Ok já tá bom, mas normal é melhor
Quanto que ficou?
Ok, sim, por favor, obrigado.
Botei um poema a venda
Precisei por outro
Vendi esse e aquele que estava ali,
a prontidão da mão no bolso
Tentei a sorte com outros
Coloquei-os à prova,
à crítica especializada.
Esperei, esperança de poeta buscando atenção
Dinheiro não, beleza pura!
Mas, quero prêmios, sim!
Querer lucrar é crime?
Creio que não!
Alguns milhões do Jabuti cairiam bem
Alguns apertos de mão e talvez dê pra comprar pão.
Hoje vendi dois e meio!
Aquele verso que sobrou sozinho talvez vire tatuagem...
É, botei o pão na mesa
com algum texto fabricado as pressas
Agonia de poeta
Buscando arrecadação.
Ando detestando
quando o celular me detecta.
Faz uma leitura, analisa dados,
avalia meus pensamentos e notifica
Diz que preciso de alguma coisa
De + anúncios, promos & contatos
Mais conteúdo engajado
Mais @ e hashtag.
Maquininha absurda, genial
Carrego no bolso a bola de cristal
Película quebrada, capinha de 50 conto
É foda precisar dele
Câmera é boooa!
Pra que preciso dele?
Ando pensando em deixá-lo em casa
Ando pensando em jogá-lo da ponte
Talvez sim, vou pesquisar como
… em modo avião é mais seguro…
UM BOM MILAGRE
SERIA TRASFORMAR
TANTO SANGUE
EM ÁGUA PURA
OS AVIÕES
QUE RISCAM O CÉU
NÃO VIERAM A PASSEIO
O PAI, INSTIGADO, PRESENTEIA SEU FILHO COM UM BRINQUEDO TANQUE DE GUERRA
O GAROTO ADORA
A MÃE, ORGULHOSA, DÁ AO PEQUENO O PEITO ABERTO COMO UM ALVO
O meu amor
O meu amor é pioneiro
Amanhece em mansidão
na liberdade do mês de maio
Meu amor não tá ao contrário
É normal amar como amo
É vital a sensação das mãos dadas,
é a verdade das bocas seladas
Meu desejo é ser
quem sou, eu vou,
eu enfrento a luta
Eu sou a causa, tô nessa busca
E sem medo da sua opressão
Da sua frasa, opinião...
Eu repito: não me iludo
Feliz antes de tudo!
Se assim já me gosto...
Te convido pra dançar
Sou movido a amor
Agora mate o seu rancor pra ele não te matar
Eu resisto no sistema
Sou gay e faço poema
Eu me arrisco a dizer
meu viver é rebeldia
pra lembrar que hoje há lei
contra a homofobia
Victor, Nov_23
Um beijo no ato
Um beijo no ato
Amor de fato
Luta no gramado do estado do mato
Cabeças de gado rebeldes
Pensamentos alados
Punhos cerrados no grosso bioma onde estamos marcados,
como os bois do deputado
Um casal se beija
Uma força que é leve,
de estirpe revolucionária
Erguem as bandeiras da classe operária
E pinta um clima tenso no trânsito,
buzinas e sinais
Mas o casal se beijou
A polícia chegou mais perto
Parando pra olhar o protesto
Um ato, dois lábios
E o mistério é
Quem deixou os invasores
ferras com os três poderes?
Eles não percebem o valor dessa luta e nem mesmo a história dessa conduta
Estão tão longe
Não veem, enquanto o casal se beija
Não veem, enquanto a massa se movimenta e se ama enquanto clama por justiça e grita:
Sem anistia!
É questão de ordem
É o gosto de liberdade em meio a cidade
que é toda nossa
Beijemo-la, assim mesmo
Um beijo que diz "vai ficar tudo bem"
Mesmo em meio a atrocidade
Sem medo da violência,
a irmã caçula do fascismo
Sem medo da inércia, irmã preferida do obscurantismo
O ato acaba
A luta nunca
O amor vence
O beijo pede
O tempo muda
E o casal se beija
Victor, Mar_23
Eu quero a escolarização dos quartéis
Eu quero a escolarização dos quartéis
Quero não queimar os papéis, nem as ordens de serviço
Que é pra revelar o quão cruéis foram os ofícios
Quero abrir novos processos,
exportar nomes próprios, resgatar pessoas físicas e,
em lista, fazer uma exposição
Performance da dor
Prestar contas, ao final
E pelo menos amanhã, o jornal ao chão,
ao vento, queimando notícias no clarão,
vai parafrasear a cena, a ameaça em questão
Mesmo o proceder histórico sombreado com fuligem
Mesmo a memória acobreada com ferrugem
Dirão, em colunas tortas
Que eu quero a inversão dos papéis
Repensando as culturas ocidentais - e essa sua influência é uma cicatriz
Mexendo nos métodos educacionais - dados viciados pelas estruturas das capitais
Revoltado com o esquecimento, penso nos meus motivos
Do que consta na carteira de trabalho
Dos atrasos do trânsito cotidiano até a carta de demissão
As neuroses da TV, problemas da população
os segredos escondidos pra baixo dos tecidos durante a eleição
Carreiras políticas? Políticos grileiros por tradição
E nois, andando na linha, pagando com disciplina ou dando uma escapadinha
Na verdade, cuidado na esquina! É tudo um castelo de cartas
Nossa memórias é saudosa maloca
O próprio sistema é a manobra da massa
Na luta de classes, o bloco que passa na rua deixa a pergunta:
Quanto custa a brincadeira? Quem manda na jogatina? E como tirar a sujeira da minha retina?
Documentos históricos nos reportam ao contexto,
Sentimos muito e ficamos emudecidos
Minha mente indaga o que fazer com tudo isso...
Vou a mesa, abro o caderno, pego no lápis e aplico palavras e imagens no papel submisso ao meu querer...
Eu quero a escolarização dos quartéis
Quero reverter a situação, mudar a direção, voltar atrás na decisão
Se possível for, por favor, eu queria a desintoxicação - sem nenhum resíduo no meu chão
Porque o não dito me revolta, porque volta em mim, nódulo na garganta
Quero a esperança verde limão, pousando na corda bamba
Pujança no jardim e fartura no lanche das crianças
Revertendo a carência, trazendo a bonança
Victor, Mai_24