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pilhas

canos

tubos

pelúcias

estopas

restos de tinta

trapos de roupas

pilhas, aos montes

máquinas

sucata

eu, do alto, não vejo o outro lado

só montes de tudo quanto  há

caixas de madeira

caixas de papelão

embalagens de cerveja

latas no chão

peças de metal

sucata

eu cato pedaços de papel

garrafas pet 

propagandas das bets

fios de cobre

só não achei dinheiro no lixão

nada parece nobre

a gracha da luva transpassa

marca minhas unhas

engordura minha mão

recicláveis, não recicláveis

faço força com os pés, com as pernas

pescoço, costas, pulmão

tomo cuidado para não ser atingido

pelo tambor de latão

que jogaram pra fora do caminhão

é um quase

estamos a pouco tempo sem acidentes

por equívocos inconsequentes

um dia, um dia

dia de peão

repenso o consumo

presumo, o distúrbio

o capital

a produção

a venda, a compra

o abuso

o consumo é uma forma de ilusão

o encarregado é corruptela do patrão

a máquina até facilita a função, mas o triturador trava

a hora não passa

mesmo que o relógio não pare

borracha queima, o pó vira fumaça e atiça o espirro

a pele coça 

são tantas coisas que podem ser outras coisas

após o processo de transformação

mas, não há nada que eu possa fazer

com as coisas que nunca deveriam ter sido coisas

com as pilhas

ilhas de lixo

destinadas à esteira

recicla-me, diz o rótulo

um continente de entulho

que eu criei

toneladas de materiais que, na verdade, nunca precisei

bitucas de cigarro que ao chão lancei

eu sei para onde vão os meus restos

se hoje eu presto,

amanha, talvez, não

no amanhã, se eu e você,

todas as coisas

e as coisas que não deveriam ser coisas, 

não prestar

será possível nos reciclar?

27.08.25

bem que eu gostaria de decorar minhas poesia
mas é tanta coisa que acontece
e quase nada acontece
do jeito que eu queria

mas eu me acalmo
e espero
aprendo virtudes com quem me guia
peço ao Orixá para não me deixar na ignorância
de achar que a importância da vida está na matéria do dia a dia

a relevância da vida tá na pequeneza do pouco a pouco
pedra por pedra ergo meu mundo rodeado de árvore
busco correr atrás
sem medo, mas sagaz
daquilo que me move
rodando por aí escrevendo onde for
não sei o que faria se antes de tudo não fosse escritor

e o que me move é tão nobre e tão singelo ao mesmo tempo
a mensagem que trago tem minha história e fundamento
pq toda vez que escrevo eu me quebro, me remonto e me reoriento

mas não é só por mim
falo das lutas que entro
de irmãos e irmãs que vejo batalhando no centro
ouço e me orgulho de todas aquelas que fazem barulho na poesia
é o fermento pra massa

a graça de tudo tá na arte das praça
por isso eu tô sempre pensando na gente feliz e contente
fazendo o que gosta

que a covardia imposta nunca desgaste minha proposta

concorda comigo que o cara a cara é sempre melhor pra conversar?
que o poeta tá na rua porque é preciso batalhar?

tudo tem o seu tempo
mas é preciso aproveitar cada oportunidade
pra dizer que viveu cada momento

hoje mesmo sai de casa com aquele pensamento
“será que vou, será que não sei”
mas um recado pra mim anotei: “nunca duvide, fé em si mesmo é a maior lei

O Nascer de Mil Tons

Milton Nascimento
É verso que pára o tormento
Estrofe que estanca qualquer sangramento
Alma, fera, água, ventre
Luz da vela acesa pelo
sopro do vento
Caminho de rio
Caudaloso acolhimento
Chuva, seca, nuvem passageira
Voz e eco, passatempo
Emoção na queda da cachoeira
Salva, cura, lava, ensina
Milton é sina de amor e fé
Fé de amar a si e de amar o mundo
Nascimento do fruto
Marco no tempo

Dedicado ao cantor

Na caminhada

reconheço iguais

nos semelhantes

caracteres desiguais

Performo a vida no jeito de ser

sou, assim, eu e nada mais

sem tirar, nem por

sou quem sou

no caminho do sol

seguindo o meu farol

para iluminar o meus sonhos

eu vou, sempre na paz

o que me faz feliz

é voltar

pra casa, pro abraço

sou reconhecido entre os meus como um bom rapaz

Jóia rara

é necessário me olhar, me conhecer, me lapidar

Intencional, crio cenários só meus

que divido com o travesseiro, no breu

sério, sorrindo

me lanço à noite

abro mão do Eu

Tô me achando...

Me achando... meio estranho,

cabisbaixo, tacanho

Tô precisando...

Tô pensando em ir...

ir prum psicólogo, sei lá

Ei, psiu, cê sabe onde encontro algum remédio?

Pro tédio, pra libido, pro ódio, pra tudo

Pacote completo

Preciso de um médico, um regulador, que seja

Um regulador, isso, regulador

Dor de humor

É... posso beber cerveja?

Pra tudo mesmo, doutor?

Ah, agora quero ver não me achar

Me achar um tanto bem ou normal

Ok já tá bom, mas normal é melhor

Quanto que ficou?

Ok, sim, por favor, obrigado.

Botei um poema a venda

Precisei por outro

Vendi esse e aquele que estava ali,

a prontidão da mão no bolso

Tentei a sorte com outros

Coloquei-os à prova,

à crítica especializada.

Esperei, esperança de poeta buscando atenção

Dinheiro não, beleza pura!

Mas, quero prêmios, sim!

Querer lucrar é crime?

Creio que não!

Alguns milhões do Jabuti cairiam bem

Alguns apertos de mão e talvez dê pra comprar pão.

Hoje vendi dois e meio! 

Aquele verso que sobrou sozinho talvez vire tatuagem...

É, botei o pão na mesa

com algum texto fabricado as pressas

Agonia de poeta

Buscando arrecadação.

Ando detestando
quando o celular me detecta.
Faz uma leitura, analisa dados,
avalia meus pensamentos e notifica
Diz que preciso de alguma coisa
De + anúncios, promos & contatos
Mais conteúdo engajado
Mais @ e hashtag.
Maquininha absurda, genial
Carrego no bolso a bola de cristal
Película quebrada, capinha de 50 conto
É foda precisar dele
Câmera é boooa!
Pra que preciso dele?
Ando pensando em deixá-lo em casa
Ando pensando em jogá-lo da ponte
Talvez sim, vou pesquisar como
… em modo avião é mais seguro…

UM BOM MILAGRE

SERIA TRASFORMAR

TANTO SANGUE

EM ÁGUA PURA

OS AVIÕES

QUE RISCAM O CÉU

NÃO VIERAM A PASSEIO

O PAI, INSTIGADO, PRESENTEIA SEU FILHO COM UM BRINQUEDO TANQUE DE GUERRA

O GAROTO ADORA 

A MÃE, ORGULHOSA, DÁ AO PEQUENO O PEITO ABERTO COMO UM ALVO

O meu amor

O meu amor é pioneiro

Amanhece em mansidão

na liberdade do mês de maio

Meu amor não tá ao contrário

É normal amar como amo

É vital a sensação das mãos dadas,

é a verdade das bocas seladas

Meu desejo é ser

quem sou, eu vou,

eu enfrento a luta 

Eu sou a causa, tô nessa busca

E sem medo da sua opressão 

Da sua frasa, opinião...

Eu repito: não me iludo

Feliz antes de tudo!

Se assim já me gosto...

Te convido pra dançar

Sou movido a amor

Agora mate o seu rancor pra ele não te matar

Eu resisto no sistema

Sou gay e faço poema 

Eu me arrisco a dizer

meu viver é rebeldia 

pra lembrar que hoje há lei

contra a homofobia

Victor, Nov_23

Um beijo no ato

Um beijo no ato 

Amor de fato 

Luta no gramado do estado do mato

Cabeças de gado rebeldes

Pensamentos alados

Punhos cerrados no grosso bioma onde estamos marcados, 

como os bois do deputado 

Um casal se beija

Uma força que é leve, 

de estirpe revolucionária

Erguem as bandeiras da classe operária 

E pinta um clima tenso no trânsito, 

buzinas e sinais

Mas o casal se beijou

A polícia chegou mais perto

Parando pra olhar o protesto

Um ato, dois lábios

E o mistério é 

Quem deixou os invasores

ferras com os três poderes?

Eles não percebem o valor dessa luta e nem mesmo a história dessa conduta 

Estão tão longe

Não veem, enquanto o casal se beija

Não veem, enquanto a massa se movimenta e se ama enquanto clama por justiça e grita: 

Sem anistia! 

É questão de ordem

É o gosto de liberdade em meio a cidade

que é toda nossa

Beijemo-la, assim mesmo

Um beijo que diz "vai ficar tudo bem"

Mesmo em meio a atrocidade

Sem medo da violência,

a irmã caçula do fascismo

Sem medo da inércia, irmã preferida do obscurantismo

O ato acaba

A luta nunca

O amor vence

O beijo pede

O tempo muda

E o casal se beija

Victor, Mar_23

Eu quero a escolarização dos quartéis

Eu quero a escolarização dos quartéis

Quero não queimar os papéis, nem as ordens de serviço

Que é pra revelar o quão cruéis foram os ofícios

Quero abrir novos processos,

exportar nomes próprios, resgatar pessoas físicas e,

em lista, fazer uma exposição

Performance da dor 

Prestar contas, ao final

E pelo menos amanhã, o jornal ao chão, 

ao vento, queimando notícias no clarão,

vai parafrasear a cena, a ameaça em questão

Mesmo o proceder histórico sombreado com fuligem

Mesmo a memória acobreada com ferrugem

Dirão, em colunas tortas

Que eu quero a inversão dos papéis

Repensando as culturas ocidentais - e essa sua influência é uma cicatriz 

Mexendo nos métodos educacionais - dados viciados pelas estruturas das capitais

Revoltado com o esquecimento, penso nos meus motivos

Do que consta na carteira de trabalho

Dos atrasos do trânsito cotidiano até a carta de demissão

As neuroses da TV, problemas da população

os segredos escondidos pra baixo dos tecidos durante a eleição

Carreiras políticas? Políticos grileiros por tradição

E nois, andando na linha, pagando com disciplina ou dando uma escapadinha

Na verdade, cuidado na esquina! É tudo um castelo de cartas

Nossa memórias é saudosa maloca

O próprio sistema é a manobra da massa

Na luta de classes, o bloco que passa na rua deixa a pergunta: 

Quanto custa a brincadeira? Quem manda na jogatina? E como tirar a sujeira da minha retina?

Documentos históricos nos reportam ao contexto,

Sentimos muito e ficamos emudecidos

Minha mente indaga o que fazer com tudo isso...

Vou a mesa, abro o caderno, pego no lápis e aplico palavras e imagens no papel submisso ao meu querer...

Eu quero a escolarização dos quartéis

Quero reverter a situação, mudar a direção, voltar atrás na decisão

Se possível for, por favor, eu queria a desintoxicação - sem nenhum resíduo no meu chão

Porque o não dito me revolta, porque volta em mim, nódulo na garganta

Quero a esperança verde limão, pousando na corda bamba

Pujança no jardim e fartura no lanche das crianças

Revertendo a carência, trazendo a bonança

 

 

Victor, Mai_24

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